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A Chave para Proteger a Pele: Entenda as Úlceras por Pressão e o Poder das Mudanças de Decúbito

ACAMADOS

Bruno V. Queiroz

8/19/202611 min read

Lesões por pressão em pacientes acamados: como prevenir em casa

As lesões por pressão, anteriormente chamadas de úlceras por pressão e popularmente conhecidas como escaras, são um problema frequente em pessoas que permanecem muito tempo na cama ou sentadas.

Elas podem causar dor, infecções, aumento da dependência e demora na recuperação. A boa notícia é que muitas dessas lesões podem ser evitadas com medidas simples, como mudanças de posição, inspeção da pele, higiene adequada e escolha de um colchão que ajude a distribuir melhor a pressão.

A prevenção deve envolver os profissionais de saúde, o paciente e seus familiares ou cuidadores.

O que são lesões por pressão?

As lesões por pressão são danos que aparecem na pele e nos tecidos abaixo dela. Elas surgem principalmente quando uma região do corpo permanece comprimida por muito tempo entre uma proeminência óssea e uma superfície, como o colchão ou a cadeira.

Os locais mais afetados são:

  • calcanhares;

  • tornozelos;

  • quadris;

  • região do sacro e do cóccix;

  • cotovelos;

  • ombros;

  • parte posterior da cabeça;

  • orelhas;

  • joelhos, dependendo da posição do paciente.

As lesões também podem aparecer sob máscaras de oxigênio, sondas, talas, órteses, colares cervicais, fraldas muito apertadas e outros dispositivos que façam pressão sobre a pele.

Como elas se formam?

A pressão constante comprime e deforma os tecidos. Com isso, a circulação de sangue na região pode ficar prejudicada, diminuindo a chegada de oxigênio e nutrientes às células.

A intensidade da pressão, o tempo que o paciente permanece na mesma posição e a capacidade dos tecidos de suportar essa pressão influenciam o aparecimento da lesão.

Outros fatores também aumentam o risco:

  • Cisalhamento: acontece quando o corpo desliza na cama, enquanto a pele permanece presa ao lençol. É comum quando a cabeceira fica muito elevada e o paciente escorrega em direção aos pés da cama.

  • Fricção: ocorre quando a pele é arrastada sobre o lençol ou outra superfície.

  • Umidade: suor, urina, fezes e secreções deixam a pele mais frágil.

  • Alterações da circulação: dificultam a chegada de sangue aos tecidos.

  • Desnutrição e desidratação: reduzem a resistência da pele e prejudicam a cicatrização.

Quem apresenta maior risco?

O risco é maior em pessoas que:

  • não conseguem mudar de posição sozinhas;

  • permanecem acamadas ou sentadas por longos períodos;

  • possuem redução da sensibilidade;

  • tiveram AVC, lesão medular ou outras doenças neurológicas;

  • apresentam demência ou alteração do nível de consciência;

  • têm diabetes ou problemas de circulação;

  • apresentam incontinência urinária ou fecal;

  • estão desnutridas ou desidratadas;

  • possuem baixo peso, obesidade ou edema;

  • utilizam sedativos ou outros medicamentos que reduzem a movimentação;

  • apresentam febre, sudorese excessiva ou pele muito úmida;

  • utilizam dispositivos médicos em contato prolongado com a pele.

A Escala de Braden pode ajudar os profissionais a identificar o risco, mas não substitui a avaliação clínica e a inspeção frequente da pele.

Como reconhecer os primeiros sinais?

A lesão nem sempre começa como uma ferida aberta. Os primeiros sinais podem ser:

  • vermelhidão que não desaparece depois de retirar a pressão;

  • área arroxeada, escurecida ou diferente da pele ao redor;

  • dor, queimação ou sensibilidade localizada;

  • pele mais quente ou mais fria que as áreas próximas;

  • endurecimento ou amolecimento da região;

  • inchaço localizado;

  • bolha ou pequena abertura na pele.

Em pessoas com pele mais escura, a vermelhidão pode ser difícil de perceber. Por isso, também é importante observar mudanças de cor e tocar suavemente a região para identificar alterações de temperatura, consistência ou sensibilidade.

Como as lesões são classificadas?

Os profissionais podem classificar as lesões por pressão em estágios:

  • Estágio 1: a pele ainda está fechada, mas apresenta alteração persistente de cor.

  • Estágio 2: há perda superficial da pele, que pode parecer uma escoriação ou bolha.

  • Estágio 3: a ferida é mais profunda e pode apresentar gordura visível.

  • Estágio 4: a lesão pode atingir músculos, tendões, cartilagens ou ossos.

Também existem lesões profundas, que podem apresentar coloração arroxeada ou bolha com sangue, e lesões cuja profundidade não pode ser determinada porque estão cobertas por tecido desvitalizado.

A classificação deve ser feita por um profissional capacitado. O familiar não deve tentar remover crostas ou tecidos da ferida.

A importância das mudanças de posição

O reposicionamento ajuda a retirar a pressão de uma região e distribuí-la para outras áreas do corpo. Isso permite que os tecidos se recuperem do período de compressão.

Entre os benefícios estão:

  • redução do tempo de pressão sobre a pele;

  • melhor distribuição do peso corporal;

  • diminuição do risco de novas lesões;

  • maior conforto;

  • alívio da dor causada pela permanência prolongada na mesma posição;

  • melhora da mobilidade e da respiração em alguns pacientes.

O paciente não deve permanecer apoiado diretamente sobre uma área avermelhada ou sobre uma lesão já existente, sempre que isso puder ser evitado com segurança.

De quanto em quanto tempo o paciente deve ser mudado de posição?

Não existe um intervalo único que sirva para todos.

Para muitos pacientes em risco e acomodados sobre uma superfície adequada de redistribuição de pressão, podem ser utilizados intervalos de duas a três horas. Entretanto, esse tempo deve ser individualizado conforme:

  • capacidade de movimentar-se;

  • condição clínica;

  • estado da pele;

  • sensibilidade;

  • conforto;

  • qualidade do sono;

  • tipo de colchão;

  • presença de lesões;

  • orientação da equipe responsável.

Se aparecer vermelhidão persistente, dor ou outra alteração da pele, o intervalo e as posições devem ser reavaliados.

Mesmo o melhor colchão não substitui completamente as mudanças de posição.

Como realizar o reposicionamento com segurança?

Sempre que possível, a movimentação deve ser feita com a ajuda de outra pessoa.

Algumas orientações importantes:

  • explique ao paciente o que será feito;

  • verifique sondas, cateteres, bolsas e mangueiras antes de movimentá-lo;

  • utilize um lençol de transferência ou equipamento apropriado;

  • evite puxar o paciente pelos braços ou pelas pernas;

  • não arraste o corpo diretamente sobre o lençol;

  • mantenha o corpo alinhado e bem apoiado;

  • coloque travesseiros entre os joelhos e tornozelos para evitar o contato entre os ossos;

  • observe a respiração, o conforto e a presença de dor;

  • interrompa a movimentação se houver falta de ar, tontura, palidez ou dor intensa.

O posicionamento lateral inclinado em aproximadamente 30 graus pode ajudar a reduzir a pressão direta sobre o quadril. Travesseiros ou cunhas podem ser colocados atrás das costas para manter a posição.

Quando for clinicamente seguro, a cabeceira da cama pode ser mantida em aproximadamente 30 graus ou menos. Isso reduz o risco de o paciente escorregar e sofrer cisalhamento.

Pacientes com risco de aspiração, refluxo, dificuldade respiratória ou alimentação por sonda podem precisar de maior elevação. Nesses casos, a orientação do profissional de saúde deve prevalecer.

Como escolher o colchão?

Não existe um único colchão que seja o melhor para todos os pacientes. A escolha depende do risco, do peso, da mobilidade, da condição da pele, da presença de umidade e do conforto.

Um colchão adequado deve distribuir o peso por uma área maior e evitar que o corpo afunde até encostar na estrutura da cama.

Colchão de espuma com redistribuição de pressão (casca de ovo)

É uma boa opção para muitos pacientes com risco leve ou moderado.

Pode ser formado por diferentes camadas de espuma, incluindo espuma viscoelástica ou de alta resiliência. O material deve se adaptar ao corpo e recuperar seu formato após a retirada do peso.

O termo “ortopédico”, a altura ou a densidade da espuma, isoladamente, não garantem que o colchão redistribua a pressão.

Colchões muito rígidos, afundados, rasgados ou deformados devem ser substituídos.

Colchão pneumático

É composto por células de ar que inflam e esvaziam alternadamente por meio de um compressor. Esse movimento modifica os pontos de apoio ao longo do tempo.

Pode ser útil para pacientes:

  • com pouca ou nenhuma capacidade de movimentação;

  • com risco elevado;

  • com piora da condição da pele;

  • que já apresentaram lesões mesmo utilizando um colchão de espuma adequado.

Os modelos simples, com células em formato de bolhas, normalmente são colocados sobre outro colchão. Modelos mais avançados podem substituir o colchão convencional.

O colchão pneumático não elimina a necessidade de reposicionar o paciente.

Cuidados com o colchão pneumático

O familiar deve:

  • verificar se o equipamento suporta o peso do paciente;

  • seguir a regulagem indicada pelo fabricante;

  • manter o compressor ligado quando o aparelho exigir funcionamento contínuo;

  • conferir se as células estão infladas;

  • observar se existem vazamentos ou mangueiras dobradas;

  • verificar se o motor está funcionando e se existem alarmes;

  • evitar que o paciente afunde até encostar na base da cama;

  • não colocar outro colchão, cobertor grosso ou várias camadas de tecido sobre a superfície;

  • utilizar lençóis leves e sem dobras;

  • manter um plano para quedas de energia;

  • solicitar revisão se o aparelho não mantiver a pressão, aquecer excessivamente ou produzir barulho diferente do habitual.

Colchões infláveis de camping ou de uso doméstico não foram desenvolvidos para prevenir lesões por pressão e não devem substituir uma superfície apropriada.

Proteção dos calcanhares

Os calcanhares possuem pouca proteção de músculos e gordura, por isso são especialmente vulneráveis.

Para retirar a pressão dos calcanhares:

  • coloque um travesseiro sob toda a extensão de cada panturrilha;

  • deixe o calcanhar sem contato com o colchão;

  • não coloque o travesseiro diretamente sob o calcanhar;

  • evite pressão concentrada atrás do joelho;

  • confira frequentemente se o travesseiro não se deslocou;

  • mantenha o pé alinhado;

  • inspecione calcanhares, tornozelos e pés todos os dias.

Também existem dispositivos próprios para suspensão dos calcanhares. Eles devem ter tamanho adequado e ser retirados periodicamente para inspeção da pele.

Cuidados quando o paciente permanece sentado

O paciente também pode desenvolver lesões enquanto permanece em uma cadeira ou cadeira de rodas.

É importante:

  • utilizar almofada própria para redistribuição de pressão;

  • apoiar os pés;

  • manter o corpo alinhado;

  • evitar que o paciente fique escorregado;

  • estimular pequenas mudanças de peso, quando ele conseguir realizá-las;

  • limitar o tempo sentado quando o paciente não consegue aliviar a pressão sozinho;

  • inspecionar a pele das nádegas, do sacro e dos quadris.

Almofadas em formato de anel, boia ou “donut” devem ser evitadas. Elas concentram a pressão nas bordas e podem prejudicar a circulação.

Higiene e proteção da pele

A pele deve ser observada durante o banho, as trocas de fralda e as mudanças de posição.

Recomenda-se:

  • limpar urina e fezes o mais rapidamente possível;

  • usar produto de limpeza suave;

  • secar a pele sem esfregar;

  • aplicar creme de barreira quando indicado;

  • trocar fraldas e materiais absorventes sempre que estiverem úmidos ou sujos;

  • evitar excesso de camadas entre o paciente e o colchão;

  • manter os lençóis limpos, secos e sem dobras;

  • evitar plástico comum diretamente sobre a cama;

  • hidratar a pele ressecada com produto adequado;

  • observar a pele sob máscaras, sondas, talas, órteses e outros dispositivos.

Curativos preventivos de espuma com silicone podem ser indicados para algumas pessoas com risco elevado, principalmente no sacro e nos calcanhares. Eles devem ser utilizados com orientação profissional e não substituem o reposicionamento, os cuidados com a pele ou o colchão adequado.

Alimentação e hidratação

A alimentação adequada ajuda a manter a resistência da pele e favorece a cicatrização.

O cuidador deve observar:

  • quantidade de alimentos consumidos;

  • ingestão de água e outros líquidos;

  • perda de peso;

  • dificuldade para mastigar ou engolir;

  • perda de apetite;

  • diarreia ou vômitos frequentes.

Pacientes com dificuldade para se alimentar ou com uma lesão já instalada podem precisar de avaliação nutricional. Suplementos de proteína, vitaminas ou minerais não devem ser iniciados sem orientação, principalmente quando existem doenças renais, cardíacas ou outras restrições.

O que não deve ser feito?

Evite:

  • massagear áreas avermelhadas, arroxeadas, endurecidas ou dolorosas;

  • arrastar o paciente sobre o lençol;

  • utilizar almofadas em formato de anel;

  • apoiar o paciente diretamente sobre uma lesão;

  • furar bolhas;

  • remover crostas ou tecidos da ferida;

  • utilizar álcool, água oxigenada, talco ou receitas caseiras;

  • aplicar pomadas ou antibióticos sem orientação;

  • colocar muitas camadas de lençóis e protetores sobre o colchão;

  • confiar apenas no colchão sem realizar mudanças de posição.

Uma tabela de cuidados pode ajudar

A família pode manter uma folha próxima à cama com:

  • horário da mudança de posição;

  • posição adotada;

  • condição da pele;

  • presença de dor;

  • alimentação e hidratação;

  • episódios de incontinência;

  • funcionamento do colchão pneumático;

  • orientações recebidas dos profissionais;

  • mudanças observadas no estado geral.

Esse registro facilita a organização do cuidado e a comunicação com a equipe de saúde.

Quando procurar um profissional?

A equipe de saúde deve ser comunicada quando houver:

  • vermelhidão que não desaparece depois de aliviar a pressão;

  • área arroxeada, escurecida ou muito diferente da pele ao redor;

  • dor localizada;

  • aumento ou redução da temperatura da pele;

  • endurecimento ou amolecimento;

  • bolha, fissura ou ferida aberta;

  • secreção;

  • mau cheiro;

  • sangramento;

  • aumento da vermelhidão ao redor da ferida;

  • febre ou piora do estado geral;

  • piora da lesão apesar dos cuidados realizados.

O aparecimento de uma lesão não significa necessariamente que o familiar tenha cuidado do paciente de forma inadequada. Porém, exige uma reavaliação do posicionamento, do colchão, da pele, da alimentação, da circulação, das doenças associadas e dos dispositivos utilizados.

Conclusão

Muitas lesões por pressão podem ser prevenidas ou ter sua gravidade reduzida.

As mudanças de posição são fundamentais, mas devem fazer parte de um conjunto de cuidados que inclui inspeção da pele, controle da umidade, alimentação adequada, proteção dos calcanhares, mobilização, escolha de uma boa superfície de apoio e acompanhamento profissional.

O colchão pneumático pode ser útil, principalmente para pacientes de maior risco, mas não é automaticamente a melhor opção para todas as pessoas e não substitui os outros cuidados.

A prevenção é um trabalho contínuo e compartilhado entre paciente, familiares, cuidadores e profissionais de saúde.

Este conteúdo possui caráter educativo e não substitui uma avaliação individual realizada por um profissional de saúde.

Referências e leituras recomendadas

  1. International Guideline – Repositioning. National Pressure Injury Advisory Panel, European Pressure Ulcer Advisory Panel e Pan Pacific Pressure Injury Alliance, 2025.

  2. International Guideline – Support Surfaces. Diretrizes para escolha de colchões e superfícies de redistribuição de pressão, 2025–2026.

  3. International Guideline – Changing Support Surfaces. Comparação entre espuma, superfícies pneumáticas, baixa perda de ar e outras opções.

  4. International Guideline – Preventing Heel Pressure Injuries. Orientações para proteção e suspensão dos calcanhares, 2025.

  5. International Guideline – Preventive Skin Care. Cuidados preventivos com a pele, controle da umidade e curativos preventivos, 2025.

  6. International Guideline – Skin and Tissue Assessment. Avaliação visual e pelo toque da pele e dos tecidos, 2026.

  7. Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023. Práticas de segurança do paciente para prevenção de lesão por pressão.

  8. Gefen A. et al. Our contemporary understanding of the aetiology of pressure ulcers/pressure injuries. International Wound Journal, 2022.

  9. Mobilização corporal para prevenção de úlceras por pressão. Revista Brasileira de Enfermagem.

  10. Aplicação de medidas de prevenção para úlceras por pressão em pacientes internados. Escola Anna Nery Revista de Enfermagem.

  11. Mobilização terapêutica como cuidado de enfermagem. Revista da Escola de Enfermagem da USP.

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