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Artrose no quadril: sintomas, diagnóstico e tratamento baseado em evidências

Saiba reconhecer os sintomas da artrose no quadril e entenda como exercícios, fisioterapia, controle de peso, medicamentos e cirurgia podem ajudar.

Dr Bruno Vinicius Queiroz

9/7/20267 min read

Dor na virilha ao caminhar, dificuldade para calçar meias, rigidez ao levantar e redução da mobilidade podem ser sinais de artrose no quadril. A condição é comum com o avanço da idade, mas não deve ser entendida como uma sentença de imobilidade. Hoje, o tratamento é guiado principalmente pelos sintomas e pela função — e não apenas pelo grau de “desgaste” mostrado no raio X.

O que é artrose no quadril?

A artrose, também chamada osteoartrite, é uma condição que envolve toda a articulação. No quadril, podem ocorrer alterações na cartilagem, no osso, na cápsula articular, nos músculos e em outros tecidos ao redor. Essas mudanças podem causar dor, rigidez e limitação, mas variam muito de uma pessoa para outra.

O quadril é formado pelo encaixe da cabeça do fêmur na bacia. Ele suporta o peso do corpo e participa de movimentos como caminhar, subir escadas, sentar, levantar e girar. Por isso, perda de mobilidade ou força nessa região pode afetar várias atividades do dia.

“Desgaste” não explica tudo

É comum associar artrose a uma peça gasta que precisa ser poupada. Essa comparação é incompleta. A articulação é um tecido vivo, capaz de se adaptar a cargas. Além disso, a intensidade da dor nem sempre acompanha a imagem: algumas pessoas têm alterações importantes no raio X e poucos sintomas; outras sentem muita dor com alterações discretas.

Isso acontece porque a dor depende de vários fatores, como inflamação local, força muscular, sensibilidade do sistema nervoso, sono, nível de atividade, saúde geral e confiança para se movimentar. O tratamento precisa considerar esse conjunto.

Principais sintomas

  • dor na virilha, na lateral do quadril, na nádega ou na parte da frente da coxa;

  • dor que pode chegar ao joelho, mesmo sem um problema principal no joelho;

  • piora ao caminhar, subir escadas, ficar muito tempo em pé ou levantar de uma cadeira baixa;

  • dificuldade para calçar sapatos e meias, cortar as unhas dos pés ou entrar no carro;

  • rigidez após repouso ou ao acordar, geralmente por menos de 30 minutos;

  • redução da rotação e da abertura do quadril;

  • mancar, diminuir o comprimento do passo ou usar apoio para andar;

  • dor noturna nos casos mais sintomáticos.

Estalos isolados, sem dor ou perda de função, não confirmam artrose. Da mesma forma, dor lateral pode vir de tendões e bursas, e dor na nádega ou perna também pode estar ligada à coluna. Uma avaliação ajuda a diferenciar as causas.

Quem tem maior risco?

Idade, histórico familiar, lesões anteriores, alterações no formato do quadril, algumas doenças da infância, trabalho ou esporte com cargas repetidas e excesso de peso podem aumentar a probabilidade. Entretanto, ter um fator de risco não significa que a pessoa terá dor incapacitante.

Fraqueza e inatividade não são necessariamente a causa inicial, mas podem piorar a função e reduzir a tolerância às tarefas. Por outro lado, atividade física bem ajustada é parte do tratamento, não inimiga da articulação.

Como é feito o diagnóstico?

Em adultos com 45 anos ou mais, dor relacionada à atividade e rigidez matinal ausente ou menor que 30 minutos, o diagnóstico costuma ser clínico. O profissional combina a história com testes de mobilidade, força, marcha e função.

Raio X ou outros exames podem ser pedidos quando há dúvida, sintomas atípicos, evolução rápida, planejamento cirúrgico ou suspeita de outra condição. Diretrizes como a do NICE não recomendam imagem de rotina para todo paciente nem exames repetidos apenas para acompanhar o tratamento não cirúrgico.

Sinais de alerta

Procure avaliação médica com urgência se a dor começou após queda importante, se você não consegue apoiar o peso, ou se houver febre, articulação quente e muito dolorosa, piora rápida, deformidade recente, perda de peso sem explicação, histórico de câncer ou uso prolongado de corticoide. Dor noturna isolada pode ocorrer na artrose, mas dor intensa e progressiva acompanhada de sintomas gerais deve ser investigada.

Tratamento: o que a ciência atual recomenda?

Os pilares são informação, exercício terapêutico e, quando apropriado, controle de peso. Medicamentos e outras estratégias podem ser acrescentados para criar condições para a pessoa se movimentar e recuperar função.

1. Educação e decisões compartilhadas

Compreender a condição reduz medo e evita repouso excessivo. O plano deve considerar objetivos concretos, como caminhar até o mercado, dormir melhor, subir escadas ou voltar a uma atividade de lazer. Sintomas podem oscilar; uma crise não significa necessariamente que a artrose avançou.

2. Exercício terapêutico

Diretrizes internacionais recomendam exercícios adaptados às necessidades da pessoa. O programa pode combinar:

  • fortalecimento de glúteos, coxa e tronco;

  • exercícios de mobilidade do quadril;

  • treino de sentar e levantar, degraus e marcha;

  • atividade aeróbica, como caminhada, bicicleta ou exercício na água;

  • equilíbrio e prevenção de quedas quando necessário.

Revisões sistemáticas mostram que o exercício pode reduzir dor e melhorar a função. Não há um único tipo ou “dose perfeita” para todos. Regularidade, progressão e adaptação importam mais do que um protocolo rígido.

Algum desconforto no início pode acontecer. Em geral, a carga está adequada quando a reação é tolerável, não cresce a cada sessão e retorna ao nível habitual em prazo razoável. Dor forte, inchaço importante, perda de força ou piora contínua pedem reavaliação.

3. Fisioterapia

O fisioterapeuta avalia força, amplitude de movimento, marcha, equilíbrio e tarefas que estão difíceis. A partir disso, prescreve exercícios, acompanha a resposta e ajusta as cargas. Também pode orientar uso de bengala, adaptações em casa, estratégias para subir escadas e formas de distribuir melhor as atividades.

Técnicas manuais podem oferecer alívio temporário e melhorar o movimento em alguns casos, mas as diretrizes recomendam usá-las junto com exercício, e não no lugar dele. Modalidades passivas isoladas raramente produzem ganho duradouro.

4. Controle de peso, quando necessário

Para pessoas com sobrepeso ou obesidade, perder peso pode reduzir a carga global, melhorar mobilidade, saúde cardiovascular e qualidade de vida. Qualquer redução sustentável pode ser útil; metas maiores podem trazer mais benefício para algumas pessoas. O cuidado deve ser respeitoso, individualizado e, quando possível, contar com acompanhamento nutricional.

5. Ajustes na rotina e dispositivos

Em períodos de maior dor, pode ajudar alternar tarefas pesadas e leves, evitar longos períodos na mesma posição e planejar pausas. Uma bengala pode aumentar segurança e reduzir a carga dolorosa; costuma ser usada na mão oposta ao quadril afetado, após orientação. Assentos mais altos, corrimãos e calçadores longos também podem facilitar o dia a dia.

6. Medicamentos

Medicamentos devem ser discutidos com médico ou outro profissional habilitado, considerando idade, rim, coração, estômago, pressão, anticoagulantes e demais remédios. Anti-inflamatórios por via oral podem aliviar sintomas em algumas pessoas, geralmente pelo menor tempo e na menor dose eficaz. Como o quadril é uma articulação profunda, produtos tópicos podem ter efeito mais limitado do que no joelho ou nas mãos.

Paracetamol e opioides fracos não são recomendados de rotina, e opioides fortes devem ser evitados para artrose por causa do baixo benefício sustentado e dos riscos. Nunca misture, aumente ou interrompa medicamentos sem orientação.

7. Infiltrações

A infiltração de corticoide dentro da articulação pode produzir alívio de curto prazo em casos selecionados, especialmente quando a dor impede a participação no exercício. O procedimento deve ser guiado por profissional experiente e considerar riscos, frequência e proximidade de uma possível cirurgia.

Injeções de ácido hialurônico não são recomendadas rotineiramente para artrose do quadril pelas principais diretrizes atuais. Terapias chamadas “regenerativas” ainda têm evidência variável e não devem ser prometidas como reconstrução garantida da cartilagem.

8. Cirurgia de prótese do quadril

A artroplastia total do quadril pode ser indicada quando dor, rigidez ou perda de função afetam muito a qualidade de vida e o tratamento não cirúrgico foi insuficiente ou não é adequado. A decisão não deve depender apenas do raio X ou de uma pontuação numérica.

Idade avançada ou excesso de peso, isoladamente, não devem impedir o encaminhamento. Cada caso exige avaliação dos benefícios, riscos, doenças associadas e expectativas. Exercícios antes da cirurgia ajudam a chegar mais preparado; depois, a reabilitação trabalha mobilidade, força, marcha e retorno seguro às atividades.

O que geralmente não é recomendado?

  • repouso prolongado ou evitar movimento por medo de “gastar mais”;

  • artroscopia para “lavar” ou “limpar” uma articulação com artrose;

  • ácido hialurônico de rotina;

  • opioides fortes como solução de longo prazo;

  • tratamentos passivos usados isoladamente e por tempo indefinido;

  • promessas de cura rápida ou regeneração garantida.

Como lidar com uma crise?

Reduza por alguns dias as tarefas que mais irritam, sem abandonar todo movimento. Faça exercícios leves já conhecidos, distribua as atividades, use o apoio recomendado e retome a progressão quando a dor estabilizar. Se a crise for diferente do habitual, durar mais do que o esperado ou vier com sinais de alerta, procure avaliação.

Perguntas frequentes

Posso caminhar com artrose no quadril?

Na maioria dos casos, sim. A distância, o ritmo e o terreno podem precisar de ajuste. Algumas pessoas toleram melhor bicicleta ou exercícios na água no início e depois avançam para caminhadas.

Agachamento faz mal?

Não existe proibição universal. Profundidade, carga, técnica e sintomas devem ser adaptados. Treinar sentar e levantar, por exemplo, é funcional e pode fortalecer músculos importantes.

A cartilagem vai “gastar” mais se eu fizer exercício?

Exercício bem dosado não é considerado causador de desgaste acelerado. Ele melhora força, capacidade física e função. O excesso súbito de carga pode provocar uma crise, mas isso é diferente de causar dano progressivo inevitável.

Quando devo procurar fisioterapia?

Quando a dor limita caminhada, escadas, sono ou autocuidado; quando você está evitando movimentos por medo; após uma piora funcional; ou antes e depois de cirurgia. Atendimento domiciliar pode ser especialmente útil para pessoas com dificuldade de deslocamento ou risco de queda.

Conclusão

Artrose no quadril é mais do que uma imagem de “desgaste”. O tratamento moderno começa por entender os sintomas e objetivos, recuperar movimento e força e controlar fatores que influenciam a dor. Exercício e educação formam a base; medicamentos, infiltração e cirurgia têm lugar quando bem indicados.

Se a dor no quadril está reduzindo sua mobilidade, uma avaliação individual pode definir um caminho seguro e realista. Fale com a Reabitta para conhecer o atendimento de fisioterapia domiciliar.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica ou fisioterapêutica individual.

Fontes científicas

  • American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). Management of Osteoarthritis of the Hip: Evidence-Based Clinical Practice Guideline, 2023; atualização divulgada em 2024.

  • National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management. Diretriz NG226, 2022.

  • Teirlinck CH e colaboradores. Effect of exercise therapy in patients with hip osteoarthritis: systematic review and cumulative meta-analysis. Osteoarthritis and Cartilage Open, 2023.

  • Holden MA e colaboradores. Moderators of the effect of therapeutic exercise for knee and hip osteoarthritis: systematic review and individual participant data meta-analysis. The Lancet Rheumatology, 2023.

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